Por mais pessoas cheias

Em março de 2024 fundamos a Academia de Letras do Brasil – SC, Seccional de Ponte Alta do Norte.

         Foi um dia de muita emoção para todos nós, por sentimos que nossa forma de expressar o mundo, através da arte, estava sendo reconhecida e nos tornava imortais.

         Naquele dia tivemos, a oportunidade de conhecer pessoas incríveis, que dedicavam seu tempo e talentos em promover cultura e artes pelo estado afora. Dentre estas pessoas, o Senhor Manuel José Conchinha, então Secretário Estadual da ALBSC.

         Troquei com ele não mais que meia dúzia de palavras, primeiramente porque a cerimônia estava prestes a começar e também porque me senti arrebatada pela sua humildade, carisma e um algo mais que ainda não era capaz de definir.

         O evento teve início e eu encantada com as apresentações, mas também com a expressão nos olhos do Sr. Manuel José, que olhava a tudo como um menino que vislumbrava pela primeira vez os acordes de um violão, ou as rimas e palavras escritas de cada história.

          Seguindo o protocolo, ele foi chamado para fazer uso da palavra. E posso lhes dizer que usou-a num português “brasileiro”, mas com um sotaque de português de Portugal e envolveu a todos. Falou não mais que dez minutos, mas deixou em cada um de nós palavras de profunda sabedoria, de quem conseguira tudo o que queria na vida e mesmo assim ainda precisava viver muitos anos para realizar sonhos que lhe povoavam a alma e por vezes escapavam pelo sorriso manso e pelo olhar cheio de candura.

         Mas, poucos meses depois soubemos que ele nos deixara, que partira para o céu e virara a estrela mais brilhante da constelação dos artistas.

Senti muito sua partida e me questionei, por algum tempo, para não dizer que me questiono ainda, como pode pessoas com as quais convivemos tão pouco, nos deixarem marcas tão profundas e outras, com as quais vivemos quase que diariamente, não nos acrescentarem nada.

Percebi então que muitos de nós temos vivido com pessoas vazias, que nada tem a nos oferecer ou oferecer ao mundo, que vão passar por esta terra e não deixar mais que as marcas do calçado no pó da estrada e que na primeira brisa serão apagadas. Pessoas que podem viver muitos anos, mas que pouco acrescentam a sua existência.

Percebi também, que muitos se preocupam em juntar bens e depois quando partem o maior desafio para os que ficam é reparti-los, gerando conflitos intermináveis acerca do que se juntou.

Não sei se o Sr. Manuel José deixou bens. E também não me preocupo com o que ficou, me preocupo e me entristeço com o que ele levou: quantas palavras de sabedoria ainda teria para pronunciar, quanto incentivo teria para destinar aqueles que buscam conquistar seus sonhos, quanto acalento para depositar nos corações desesperançosos.

         Assim como ele, quantos outros vão e levam tudo: os conselhos cheios do bom senso, as palavras carregadinhas de carinho e amor, as receitas inconfundíveis que espalham aromas no final da tarde, as histórias ainda não escritas, os poemas não redigidos, os versos não musicados.

         Pois se tivesse direito a um desejo, neste momento, desejaria que o mundo ficasse repleto de pessoas cheias. Pessoas cheias de sabedoria, cheias de uma energia vital que contagiam tudo a sua volta, pessoas cheias de palavras doces para acalmar os corações e cheias de palavras de entusiasmo para erguer aqueles que ficam pelo caminho, pessoas com a alma cheia de projetos, de dons, de ideias e ideais que transbordam do coração e da mente e se transformam em histórias, poesias, artes, música; pessoas cheias da vontade de transformar o mundo e que tem olhos brilhantes ao falar de suas causas, sejam em defesa do meio ambiente, dos animais, dos seres humanos; mais pessoas cheias de abraços sinceros, sorrisos verdadeiros e amor incondicional.

Ah, também gostaria de pedir que todas essas pessoas fossem literalmente imortais, para terem tempo de encher nossas almas, nossos ouvidos e nossos corações.

         Ao Sr. Manuel José desejo apenas que descanse em paz, ou melhor, que fique em paz, mas trabalhe muito aí onde está para que, se possível continuar nos inspirando e que tenha certeza, que levaremos a diante seu legado!